Mas eu olho pra você

Não vou macular essa dureza do concreto com flores. Eu tenho respeito até pelas coisas sem calor, se honestas. Mas é que existe um jeito de adocicar a aridez com afeto. E eu fico olhando pra você e esqueço as notícias do mundo que é tão vasto, mas insistem em dar um foco extremo no que há de trágico nele. Ninguém contou que essa chuva fresca antecipou a exuberância daquela árvore adoentada. Ninguém se preocupou com o diagnóstico real da floresta devastada Ou se o girassol que andava nublado se sentiu mais seguro aqui em casa. Eu jamais abri um jornal e li: “esta página em branco é pra você escrever como gostaria que fosse o seu dia ou pra dizer como se responsabilizará pelo seu mundo”. Ou talvez uma manchete simples: “Existe um silêncio no mar que também é paisagem”. Mas eu olho pra você e me vem tanta ternura que agradeço a esperança porque você é bom e me inspira a ser alguém melhor. Porque eu lembro sempre, que quando chove sobre o mar, a água doce e a salgada entram numa intimidade máxima. E não é à toa que o soro fisiológico é quase o resultado desse encontro mágico entre os dois: um punhado de chuva para duas pitadas de mar. Foi assim que eu curei nosso girassol nublado, mas isso, nenhum jornal noticiou. Marla de Queiroz
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